Lorien's posts with tag: religião
Ia blogar sobre outra coisa. Essa nem era tema de blog. Mas se fez necessário.
Há umas duas semanas atrás, Chronos me contava uma visualização. E eu, empolgada, e meio sem pensar no que dizia, soltei um "como Proteu?". Chronos não conhecia a lenda. Deixei prá ler prá ele depois, da Odisséia, para ele não perder o que dizia. E quarta à noite me lembrei disso. O primeiro exemplar da Odisséia que veio à minha mão, pois tenho uns três, foi justo a que eu estudei em 2002, cheia de anotações de uma época em que julgaria muito imaginativo aquele que me dissesse que eu ainda ia cultuar os deuses sobre os quais estava lendo. Achei a citação sobre Proteu muito mais fácil do que imaginava. Achei que ela estivesse depois da parte sobre Circe, e fosse Odisseu quem tivesse se deparado com ele, mas era Menelau quem contava a Telêmaco, ainda na parte incial da Odisseia, a tal Telemaquia do título. Acontece que o Velho do Mar logo se tornou uma preocupação secundária, uma vez que eu comecei a ler os trechos que eu havia marcado, e minhas observações, tão sucintas, mas tão cheias de significado. E ver minha energia, de quando era seis anos mais jovem do que sou hoje, ainda impregnada naquelas páginas. Foi bem difícil me desgrudar do livro por algum tempo.
Fui lavar a roupa e a louça, agora há pouco, e acabei começando a pensar em algo que lera a pouco. Uma amiga minha havia escrito sobre sua relação com uma determinada divindade. Saber como se aproximar de uma divindade nunca, nunca é fácil, mas se torna ainda mais difícil quando é uma divindade lembrada por poucos, e cuja presença inspira uma veneração muito profunda. E, então, me lembrei de um trecho, que posto aqui. Serve como conselho para ela, e para todos nós, em diferentes situações.
"E eles chegaram a Pilos, a imponente cidade de Neleu. (...) A tripulação enrizou a vela e enrolou-a, ancorou o navio e desembarcou. Telêmaco também desembarcou, depois Atenéia [ disfarçada como um mortal chamado Mentor], que rompeu o silêncio, dizendo: -Não deves mostrar-te envergonhado, de modo algum, Telêmaco. Sabes porque fizeste esta viagem: para saber notícias de teu pai (...) Vamos, pois, procurar logo Nestor: vejamos o que ele realmente pensa e sabe a respeito. Deves tu mesmo falar a Nestor, e pedir-lhe para dizer-te toda a verdade. Ele tem muito bons sentimentos para enganar-te. Telêmaco replicou: -Como posso ir cumprimentá-lo, Mentor? Não tenho prática de pronunciar discursos corteses. Além disso, um hovem deve se mostrar tímido quando se dirige a um homem idoso, Encarando-o com seus olhos penetrantes, Atenéia retrucou: -Pensarás algumas coisas sozinho, Telêmaco, e outras coisas Zeus colocará em teu espírito. Creio que não naceste e foste criado sem as bênçãos do Céu."
Homero, A Odisséia (em forma de Narrativa). 17a. Edição, Ediouro. Canto III.
Saudações! Um post da Inês causou polêmica sobre a mistura de deuses de panteões diferentes. Eu já resvalei na minha opinião sobre o assunto neste e neste (também polêmico) escrito, mas nunca cheguei a dar uma opinião mais direcionada e profunda. Então, aí vai: Em princípio, eu não aprendi nada com ninguém que siga, ou tenha seguido, o mesmo caminho que o meu. Li sobre o meu caminho, mas o aprendizado prático e/ou de convívio físico, foi todo com pessoas que seguem caminhos diferentes, e eu agradeço muito essas pessoas,e honro o jeito que fui, intencionalmente ou não, ensinada (pois a maioria dos que nos ensinam não têm a meta explícita de nos ensinar; eles estão vivendo a vida deles, e acabamos aprendendo com seus exemplos). Isso por sí só seria motivo para mim honrar, pelo menos, os quatro festivais celtas. E, bem... Eu sou casada com outro neopagão, mas que não segue a mesma linha que eu. O Chronos pratica o druidismo, e eu cultuo os deuses da Grécia. É impossível para mim ignorar a existência do altar dele como a pimeira coisa que olhamos quando acordamos de manhã, assim como é impossível para ele que o meu altar para Héstia não seja a primeira coisa que ele olhe ao chegar em casa. Há quem diga, mesmo entre praticantes extremamente sérios e conceituados do druidismo que é possível praticar o druidismo honrando deuses de outros panteões. Mas essa NÃO é a minha opinião. Eu já estudei um pouco de druidismo (nem metade do que eu gostaria), mas nunca vai ser o meu caminho. Não funciona assim comigo, apesar de eu usar muitas influências do druidismo nas minhas práticas. Isso porque os meus deuses têm outras demandas. Meu conceito de ritual é muito mais solene, exige preparações e práticas que não necessáriamente são necessárias no druidismo. Ao mesmo tempo tem coisas importantes lá que não são importantes para mim. Então uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. No entanto, isso continua não impedindo em nada que eu celebre com o Chronos e outras pessoas que conheço que seguem o druidismo, nem que o Chronos ou quem quer que seja celebre os meus deuses comigo, mesmo se guiando por panteões diferentes. Inclusive, dependendo do caso, dentro de uma mesma celebração. Só é importante distinguir uma coisa da outra. Perante os celtas, ou os nórdicos, ou os deuses afro-brasileiros (nunca assisti um ritual a eles, mas morro de vontade!), eu sempre me sentirei uma estrangeira, e me portarei como minha cultura diz que um estrangeiro deve portar-se: Respeitando os costumes de quem hospeda, sem jamais desprezar a hospitalidade, mas também sem trair meus preceitos. Se para mim realizar um ritual exige preparações de purificação, não iria para qualquer ritual sem preparo, mesmo que para a religião "do outro" isso não seja necessário porque (como alguém disse em um reply a um dos posts que mencionei lá em cima) para ela tudo é rito. Para mim os deuses estão em todos os momentos de nossas vidas, e em todos eles lhes glorifico, mas existem momentos mais especiais, que são as celebrações, e essas festas para os deuses exigem cuidados muito especiais. Se eu não me apresentaria suja em uma festa dedicada aos deuses a que honro, não seria um desrespeito fazer isso perante os deuses honrados pelos meus amigos? Sempre ao ir a algum ritual de outra cultura, me purifico como se fosse honrar aos meus próprios deuses, e, antes de sair, faço uma prece, avisando que estarei como estrangeira em terras de amigos (e nada mais familiar aos gregos que viajar, que ser estrangeiro e receber o estrangeiro - aliás, muitos de nossos deuses não são, em origem gregos, mas foram trazidos para o que se chama de Grécia Antiga, e assimilados e adaptados por essas populações), e reafirmo que não estou abandonando nada por estar ali. Desde que peguei esse jeito de me comportar, nunca mais tive problemas com o temido (e pesadíssimo) choque de egrégora, e conhecer o estrangeiro só me ajudou e acrescentou. Quando celebramos de modo misto, seguimos tudo o que é necessário em ambos os modos de celebrar: Eu faço libações e oferendas como meu costume, e o Chronos, que é quem em geral celebra comigo de modo misto, conduz as preces necessárias pelo costume dele. E vamos indo bem assim, sem perder em profundidade, e sem se desrespeitar. Uma coisa que gosto de lembrar sobre esse assunto é que, para muitos dos modos de se cultuar os deuses da Grécia, mesmo deuses do nosso panteão são inconciliáveis. Já lí várias vezes pela Internet que se deve cultuar apenas os deuses do Olimpo, e que esse negócio de mecher com Titãs ou divindades pré-olímpicas no geral não dá certo, pois "as cargas deles são muito pesadas para que os humanos suportem", e coisas assim. Nem sempre tão nitidamente, mas eu mesma tenho separado: Ou faço um ritual aos olímpicos, ou celebro os titãs e os espíritos da natureza. Mas ainda estou estudando mais, para resolver esse problema na minha mente, pois ainda não sei se preciso, ou não, seguir essa ortodoxia. E mesmo para quem cultua só um panteão, tem aqueles deuses que vemos todo dia, outros em ocasiões especiais... Vejo tantos problemas em pessoas que misturam panteões quanto os que vejo naquelas que não se informam sobre as individualidades de cada deus, mesmo que cultuando dentro de um único panteão, ou se contentam com informações superficiais. Nada contra alguém que cultue deuses de mais de um panteão, respeitando as particularidades de cada deus e sabendo separar as coisas quando a separação é necessária. E, se assim não fosse, que direito teríamos de cultuar deuses que não são de nossas terras, sendo que todas as "mitologias" eram geograficamente localizadas? Assim, acho que precisamos tentar não tomar posturas radicais contrárias a determinadas práticas, sem checar a possibilidade de aprofundar nelas antes. O que deve ser criticado, e combatido, e lembrado como exemplo para não fazer, é a superficialidade e o desleixo de certas práticas, o desrespeito às particularidades de cada deus e de cada cultura, e a prática de coisas sérias como se fossem brincadeiras, sem o preparo e o estudo necessário. Como disse o Chronos ontem, "nesse ramo, pior que o mal intencionado só o mal informado".
...ou ainda, como atrair público. Saudações! Vou escrever sobre um tema que tem me incomodado bastante desde o ano passado: Que nome pessoas dão para seus trabalhos no ramo da espiritualidade, e quem eles visam atrair com esses nomes? Vamos começar com alguns pequenos exemplos: "ATRAIA A PESSOA AMADA - Como a abelha para o mel, em curtíssimo tempo..." "ALTA MAGIA - Trago seu amor aos seus pés por mais impossível que seja. Pagamento após resultado." "VIDENTE DO AMOR - Tarô, Buzios, faz e desfaz trabalhos" "MAGIAS E RITUAIS DE AMOR PARA 2008! (...) Amuletos de Amor (magia com cristais e ervas) para o final e inicio de ano " "PAI GALO - Faz a pessoa amada voltar em 7 dias - Trabalhos Grátis - Marque sua consulta e ganhe o talismâ do amor" "AMOR E MAGIA (...) Trago seu amor aos seus pés apaixonado. Por mais difícil que seja em 24 horas. Facilitamos o pagamento e aceitamos cartão de crédito" "SIMPATIA INFALÍVEL - Trago o seu amor em seis horas" Aparentemente o público alvo desses anúncios é o mesmo, certo? Aparentemente, esses anúncios poderiam ter sido feitos no mesmo lugar, certo? Todos eles, menos um, foram, de fato, retirados do Metrô News do dia 14. Um, entretanto, é um excerto de um e-mail que recebo de um lugar bastante conceituado, buscando público para um Workshop, e o assunto do e-mail está copiado na íntegra, em maiúsculas. Dependendo do modo como você anuncia o que está vendendo, você atrai um público diferente. Esses anúncios de jornal estão todos visando um público que acredita que é possível fazer magia, mas que têm a necesidade de um profissional eficiente para que ela seja eficaz. Acontece que esse Workshop é mais profundo que esses anuncios de jornal. Copio uma parte maior do corpo do e-mail: Conteúdo: - Ritual de Purificação do Coração - Deixando o Passado no passado e preparação para um Futuro Brilhante
- Ritual de Florescimento: A Renovação e O Desabrochar da Rosa Interior - Vencendo o medo de amar e ser amada
- Banhos e Poções de Afrodite
Amuletos de Amor (magia com cristais e ervas) para o final e inicio de ano Simbologia do Amor
- Dança de Afrodite - A Libertação do Ventre Sagrado e a Sensualidade latente
- Oração e Meditação para o Crescimento do Auto-Amor (Auto-estima)
Pelo corpo, um público um pouco mais instruído poderia se interessar (eu iria em um curso desses se tivesse dinheiro), mas me pergunto quantas dessas pessoas, na pressa, abririam um e-mail com esse título. Talvez seja chatície única e exclusivamente minha (e vcs tem todo o espaço dos comentários para concordar e/ou discordar), mas eu desconfio muitíssimo dessas coisas com títulos muito espalhafatosos. A questão é que, por trás desses títulos, às vezes coisas interessantes acabam escondidas.O próprio livro de numerologia que eu estou lendo é um exemplo disso. Pelo nome, e pela capa, achava que seria muito fraquinho, e eu estou curtindo muito (postei um pouco sobre ele aqui). Eu desconfio de tudo o que venha da Rádio Mundial, por exemplo, mas sei que é um preconceito meu que, por causa da minha mãe, ouvia aquilo antes de começar a acreditar em muita coisa, e achava tudo aquilo um absurdo. Mas e se eu tivesse de falar de tudo o que eu vi? Não pareceria tão abobado e superficial quanto tantas coisas que ouvi lá? Compartilhar experiências sobre o outro mundo não é nada, nada fácil. E é provavelmente por causa desse meu horrror a esse tipo de sensacionalismo que eu sou tão fechada para falar abertamente das coisas que faço, e, principalmente, das que vejo.
Ontem aconteceu uma coisa que me deixou frustrada, e com um sentimento muito ruim.
Bem, na verdade não começou ontem, mas quinta, quando eu cheguei cansada e preocupada com meu trabalho de História dos Estados Unidos, para entregar a proposta em duas semanas, sendo que eu nem tinha definido o tema. Mas aparentemente ia ter o sábado mais ou menos livre, e, com algum esforço, seria fácil lidar com isso. Meu marido me avisou, então, que haviamos sido convidados para um sarau por uma amiga dele. Ia ser com um pessoal que pratica o druidismo, com alguns afetos e alguns desafetos dessa pessoa que vos fala. Coisa que eu tento levar ao máximo numa boa, cansada de atritos e tentando uma "política conciliatória".
De qualquer maneira, não costumo recusar convites a saraus. Sinto falta da época onde tinha pelo menos um deles para ir por semana. Já começa a ficar difícil lembrar algumas das poesias que eu tenho de cor. Eu ia dar um jeito de ir. Dei, e fui com ele, na maior alegria. Chegamos lá, encontramos o pessoal, começamos a conversar. E, papo vai, papo vem, algumas pessoas começam a chamar o encontro de "ritual", e a coisa foi se tornando meio estranha. Resolvemos perguntar. "É, parece que vai ter um ritual", diz alguém. Vamos diretamente a quem nos convidou, perguntar o que ia realmente acontecer. Ela simplesmente havia esquecido de avisar que era um ritual. Ritual a quem, ou prá que? Eu já estava irritada demais prá perguntar.
As pessoas estão cansadas de saber que eu não sigo o druidismo. As pessoas estão cansadas de saber que eu participo e gosto de rituais de outras linhas, mas se eu não me preparar antes de sair de casa eu sinto choque de egrégora. Mais do que isso, pelo meu jeito de lidar com deuses e celebrações é definitivamente impensável celebrar a qualquer coisa sem um bom banho com a intenção de purificação para o ritual antes. Eu tinha tomado um banho, mas não era a mesma coisa.
Eu simplesmente não podia ficar. Tinha ido para lá à toa. Fui ficando com mais e mais raiva, pensando na minha roupa não lavada, no meu trabalho não feito... Para ficar sentada sozinha no Jardim Botânico, enquanto os outros se divertiam.
Mais do que isso. Como alguém vai a um ritual e se esquece do fato? Como alguém convida outras pessoas para algo tão sagrado com tanta displicência? No fundo, eu fui percebendo, ela não estava desrespeitando a mim e ao meu marido. Estava desrespeitando aos deuses dela, e a ela própria. Não foi uma iniciante que fez isso. Eu ainda nem sonhava em saber o que é neo-paganismo quando ela começou a estudar. E é uma pessoa iniciada em mega-ultra-plus trecos, supostamente graduada para ensinar os outros. Como uma pessoa estuda tanto para continuar tão tola, fraca e desrespeitosa?
Ela só podia ter feito isso de caso pensado. Para eu ser forçada a me isolar e as pessoas ficarem apontando o dedo para mim e dizendo "olha lá aquela criança bobona e anti-social que não sabe lidar com os outros e não quer participar de novo. Quando ela vai crescer? Aquela alí não aguenta o tranco, vive à sombra do marido e só está arrunando a vida dele, na verdade nem quer nada com neo-paganismo nenhum", como já disseram tantas e tantas vezes. Era muito difícil acreditar em outra explicação vinda de alguém como ela.
Chrorei mesmo. E de montão. De berrar, espernear, alí, sozinha. Não podia acreditar que uma pessoa mesquinha como aquela é modelo para pessoas que eu confio e amo, é celebrada como representante de uma religião tão legal quanto o druidismo. Como alguém em uma posição como a dela podia fazer tão pouco caso de si mesma?
Link: http://www.bibvirt.futuro.usp.br/textos/humanas/religiaoetc/tao_te_chi...Por tudo o que eu tenho estudado e ouvido sobre o idioma chinês, estou cada vez mais convencida da impossibilidade de traduzir algo do chinês para o português, pois os sistemas de pensamento são tão diferentes que as linguagens não os alcançam. Toda tradução do chinês é uma adaptação, o que é bem diferente da tradução de outras línguas, cuja perda de sentido é bem menor. Bem, anyway, o que temos nesse link é um PDF, do Tao Te Ching, uma das principais obras antigas do taoísmo, se não a principal. Acredito que, mesmo com essas limitações, vale tentar ler!
|
|