Flores Sendo - Blog da Lórien

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Blog EntryCarta para JRR TolkienJan 3, '08 2:00 PM
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Querido "São" Tolkien:

Lembra-se daquele ano em que mandei uma carta nessa mesma data? Pensei em fazer disso uma tradição pessoal, que talvez não tenha dado muito certo. Nos anos anteriores acabava esticando aqui e alí, e voltava para casa só depois do brinde em seu nome, e acabava nunca escrevendo.
A grande novidade desse tempão todo é que acabei me apaixonando perdidamente. Daqueles amores que fazem você sair de si e fazer coisas impensáveis até quase enlouquecer, e que podem ser desfrutados melhor quando o tempo tira de nós o veu da insensatez. Por esse amor saí da casa de meus pais e me casei no dia 23 de Setembro. Não pelo aniversário de Frodo e Bilbo, mas talvez pelos mesmos motivos pelos quais o aniversário deles é nesse dia.
Confesso que nesse tempo não avancei muito nos estudos de suas obras, e já descartei quase por completo a hipótese de estudá-las academicamente, pelo menos por um tempo. Tantas coisas novas surgiram na minha vida nos últimos tempos, que tenho a sensação de que, ao estudar, a única coisa que eu descubro são mais coisas para estudar. Tenho criado muito pouco, estou na fase de digestão.
Amigos vieram e foram, e eu estou quase encarando isso com mais tranquilidade. Afinal, se mesmo na comitiva do anel houve quem traísse e quem simplesmente tivesse de se separar, como não seria assim na vida dos mortais de nossa era?
Aliás, tenho comigo - e não tenho certeza, Professor, se o senhor concordaria - que uma das funções das histórias é exatamente ensinar coisas duras sem que precisemos passar por aquelas experiências nossa "vida principal", e nos preparar para lidar com elas quando esses acontecimentos chegam mais perto. Antes eu sinto que era melhor ao lidar com isso, mas esse tanto de coisas que aconteceram nos últimos anos acabaram me dando uma bizarra amnésia de histórias. Eu só me lembrava delas depois que tudo já tinha acontecido, e então pensava que eu devia ter aprendido e ter feito de outro jeito. Quando percebia isso, como me decepcionava comigo mesma! Tudo acabava ficando ainda pior. Mas não precisa se preocupar muito, parece que a amnésia já está passando.
Não sei bem o que vou fazer esse ano que vai se iniciando: Se renovo o contato com coisas antigas, se dedico meu coração a novidades, se consigo equilibrar essas duas coisas. Mas tentarei voltar para te contar algum dia o que aconteceu depois daqui - até porque, agora, estou atrasada...

Muitos abraços
Cayra, ou Lórien

Blog EntryciclosDec 8, '07 10:23 PM
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Já deve fazer um ano ou um pouco mais que tive um insight sobre esse negócio de ciclos da vida. Foi ano passado quando percebi que estava tendo um ano terrível depois de um ano maravilhoso e cheio de descobertas, como se para colocar, na prova de fogo, tudo o que eu tinha construído até então. E escrevi no meu diário físico mais ou menos assim: 2005 está para 1996, assim como 2006 para 1997, e, se mantendo o padrão, as coisas ainda continuam ruins ano que vem.
Bem, continuaram. O padrão se manteve. 2007 foi realmente um ano de continuidade no questionamento das minhas posturas, de desafio constante, de uma virada bizarra a partir do segundo semestre, que, guardadas as proporções, foi muito parecida com a de 1998.
Essas perspectivas são animadoras. pois 1999, e os anos que se seguiram até o dito 2005, foram todos muito bons, mas cada um com sua personalidade.
Em 1999 conheci muitas pessoas. Das irreconciliavelmente diferentes, às que me influenciaram em posturas, as que eram meus pares, e àquelas que, apesar das diferenças, tinha coisas em comum. Eu quero muito isso para mim novamente! Ingressar em novos ciclos e aprender muito!

O mais interessante é que, agora que estou começando a aprender sobre numerologia, isso tudo faz muito, muito sentido. 2008 e 1999 foram, para mim, anos pessoais de número 1. Um ano de renovação de vida e de novos projetos, um ano de força e de impulso criativo.

 Perceber novas perspectivas de algo que já se tinha pensado é tão divertido. A confiança que se desperta assim é uma delícia! E olha que tenho precisado dela!

Venha logo, 2008!

Photo AlbumCasamento Civil - 29/09/2007 (37 photos)Dec 2, '07 12:37 PM
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Casamento de Chronos e Lórien, realizado em uma manhã fria de Sábado no Cartório do Jabaquara, próximo ao metrô São Judas, seguido de churrasco (e, depois, lançamento do livro da Shellob, cujas fotos também estão aí).

Blog EntryApenas as coisas boas?Nov 1, '07 6:27 PM
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Saudações!

Deve fazer já uns dois anos, eu e uma amiga minha decidimos escrever um blog contando só as coisas boas que aconteciam conosco: Chamava-se Motto Sugoi e estava no live journal. Não contamos para ninguém que escreveríamos, a princípio nem nossos namorados iam saber. O blog foi uma experiência gostosa, mas teve uma vida curta. E, by the way, essa amiga se distanciou bastante, por causa das tais diferenças de escolhas que separam destinos, mesmo os daquelas pessoas que, ao se encontrarem, percebem que já compartilharam mais vidas que muitos jamais pensaram existir.
A idéia do blog vinha do fato de vermos tanta desgraça do mundo, enquanto a inspiração é uma coisa bela e traz o belo. No quanto às vezes precisamos nos desligar dessa desgraceira toda e ouvir coisas belas para conquistar prazer.
E essa semana não escrevi antes porque fiquei pensando: Qual é o valor de escrever um monte de desgraça? Qual é a autenticidade em escrever apenas a parte boa escondendo que, no balanço das coisas, a situação não está legal? Prá deixar a maioria que lê meu blog porque gosta de mim e de minhas idéias preocupados, e aqueles que estão lendo por inveja exultarem de triunfo?
Fiquei a semana inteira em casa sim. Com um corpo mole e um desânimo terríveis, com a imunidade lá embaixo, porque peguei ao mesmo tempo uma conjuntivite e uma infecção na garganta. Com um monte de tempo extra, consegui fazer pouca coisa, do bolo delas que tenho para fazer. Foi uma situação sisífica, se é que existe esse adjetivo.
Tive cuidado e carinho. Precisei deles, e, também fiz aquela manhinha gostosa. Mas tive muita rosnação na semana de Minguante que me traz a TPM todos os meses. Tive um acesso de fúria, controlei outro. Eu não tinha acessos de fúria como esses antes. Mas evitava lidar com minha agressividade. Agora, que estou trabalhando com ela, às vezes o controle se esvai.
Mas sabe? É tão mais complicado falar sobre tanta coisa quando seu blog está sendo lido! Por causa do grupo de estudos de tarot agora tem gente que eu estou conhecendo aos poucos e está lendo tudo isso. Por causa da tal da "network" do multiply li coisas que me interessaram em outros blogs, comentei, e as pessoas passaram a me ler também. Por causa de um post que você encontra aí um pouco mais prá baixo que feriu o ego de alguém, agora meu blog é considerado por alguns uma ferramenta inadequada nas mãos de uma tola violenta e ensandecida. E estes agora me leem para ver de quem eu vou falar mal da próxima vez. Para ver que injustiça eu vou cometer em nome da minha visão torpe da realidade...
Ao contrário do Motto Sugoi, agora este blog está sendo lido. Lido por pessoas que tem diferentes Lóriens, ou Lúthiens, ou Sakuras mentais. É bom ser lido. Dá uma sensação gostosa. E isso é apenas um blog, eu não tenho que agradar a todos.
Mas é fato que, estar sendo lida me estimula e me faz postar mais. Me faz querer compartilhar. Postei 4 vezes em Outubro, uma em Setembro, e antes disso, postei em Maio. Estou contando apenas o "blog" prá efeito de estatística, mas dá prá ter uma idéia de como estou mais empolgada com toda a coisa. Mas foi por estar sendo lida que desfiei a desgraceira sem vômito. Mas foi por estar sendo lida que pensei em contar também o lado bom...
Parafraseando Drummond: "Eta vida besta, meu Deus"

Blog EntryCaminhos para a espiritualidade, parte IVOct 7, '07 12:26 AM
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Uma mente muito inquieta pelas turbulências do dia, uma discussão interessante na Página da Pietra e uma tarefa me trazem de volta, para contar a parte desses caminhos mais próxima ao estágio em que me encontro

Tudo começou quando, na última semana de aula no penúltimo ano de CEFAM, recebemos a notícia de que começaria um novo projeto na escola no ano seguinte: O Círculos de Leitura que, na época, era muito, muito mais modesto do que hoje em dia. O que me interessou logo de cara foi a promessa de que o terceiro livro que seria lido e discutido seria "O Banquete", de Platão. Era uma boa oportunidade  de aumentar os meus conhecimentos. Mas não imaginei que fosse me interessar e envolver tanto.
As discussões eram profundas e me satisfaziam. O tipo de contato proposto com os livros lidos e com a poesia despertavam coisas em mim que eu não sabia nomear. E aquilo tudo me inspirava na escrita e na vida. Havia um sentimento misterioso e muito sutil em jogo, que em muito me alegrava.
Rapidamente me destaquei no projeto - pelos tipos de pensamento que mobilizava, pela carga de leituras que eu tinha antes, pelas poesias que eu comecei a decorar... Eu não era uma figura destacada, várias pessoas emergiam, como pares, cada um como uma flor diferente de um rico jardim. Dentre essas pessoas, superficial ou profundamente, já conhecia praticamente todas; mas foi a que menos conhecia que se tornou o meu companheiro de descobertas, debates e sonhos pelos três anos seguintes: O Chico, que alguns dos que estão lendo aqui provavelmente conhecem.
E nossa primeira coisa compartilhada foi estudar, conjuntamente, a obra de JRR Tolkien. Ler muito, e discutir muito. Por acaso ele tinha "O Hobbit" e foi comprando, ao longo do primeiro semestre daquele ano, as demais obras de Tolkien, e passamos a viver, juntos, um pouco dentro delas.
JRR Tolkien, esse cristão fervoroso, foi uma das pessoas mais importantes para a redescoberta de meu caminho espiritual. Se não foi a mais importante de todas.
E foi empolgante quando ele me ligou nas férias para dizer que tinha comprado O Silmarillion e que ele tinha certeza que eu ia adorar, pois falava de muitos, muitos elfos, e eu adorava elfos. Peguei prá ler, me encantei muito, um tempo depois comprei um para mim para poder fazer anotações... o Silma se tornou minha, nossa Bíblia, por um tempo. E essa expressão, por mais que seja uma brincadeira normal dos Tolkendilli (fãs de Tolkien) foi um pouco verdade para mim. Pois estava vendo e vivenciando uma cosmogonia neopagã novamente, e, mesmo que fosse uma cosmogonia inventada de um mundo inventado, aquilo tudo parecia tão crível... Poderia mesmo ter acontecido em uma realidade paralela, como as histórias que eu escrevia quando estava na sexta série... Estavamos realmente fanáticos por tudo o que se relacionasse à Terra-Média.
O ano de 2003 chegou, entrei na faculdade, comecei a trabalhar no Círculos de Leitura, que realizava sua primeira expansão, junto com o Chico e muitos outros que haviam sido do meu grupo. Vivia um tempo próspero, de realização de sonhos, e tudo isso se gestava em mim. Passou com uma deliciosa leveza.
Para chegar 2004, e, logo no dia 3  de Janeiro, eu tomar coragem e ir, pela primeira vez a um encontro da Toca São Paulo, a sede paulistana do Conselho Branco - Sociedade Tolkien - e começar a conhecer pessoas que são parte muito importante dessa história.
Foi na Toca que conheci, pela primeira vez,  e pessoalmente, pessoas que realmente praticavam o neopaganismo. E foi com eles que comecei, um ano depois. E foi lá que conheci o Chronos, e nunca podia imaginar que aquele carinha tão nulo, com quem mal falei no primeiro ano-e-meio de convivência, ia se casar comigo.
Quando as aulas começaram, tantas coisas novas já tinham acontecido . Estava muito feliz, e, naquele semestre, faria História Medieval! Mas eu, que esperava ouvir da cultura medieval, e do feudalismo, e etc., peguei um professor maravilhoso - o Flávio de Campos - mas que ia se focar em um tema que, para mim, ainda era bem indigesto - a história do cristianismo. Aquilo se engasgou na minha garganta, e disse a mim mesma "ok, vou ter que passar o semestre inteiro estudando isso. Então, vamos tentar tornar as coisas mais leves." E peguei para ler um dos livros que comprara no final do ano anterior, na mega feira que sempre tem na usp com descontos muito bons: "Isto és tu: Redimensionando a Metáfora Religiosa", de Joseph Campbell.
Já havia lido, então, um pedaço d' "O Poder do Mito", e Campbell me encantava muito. Principalmente por que ele havia escrito sobre algo que havia percebido ainda na meninice: Que as mitologias tinham muito em comum umas com as outras - percepção essa que me levou, pela primeira vez, à idéia de cursar História.
O livro do Campbell casou muito bem com as aulas do Flávio, que explicavam a origem da Igreja e do pensamento cristão como o conhecemos, para, através da compreensão racional, ir quebrando  as barreiras ao pensamento cristão que eu tinha me imposto devido às màs experiências do passado. E a conjunção dessas coisas todas foi reacendendo em mim, bem lentamente, um desejo pelo espiritual.
E foi no início do ano seguinte que dei o primeiro passo. Já tinha uma amizade considerável por alguns neopagãos da Toca, e, conversando no MSN no meio do expediente, a Vaire me disse que naquela noite iria à celebração de Briganthia na Hera Mágica. Já havia ido na Hera umas duas vezes, para palestras sobre Tolkien e Rei Arthur do Claudio Quintino. De impulso, decidi ir junto.
Senti muita coisa ao som daqueles tambores, e o que mais me animava era que aquela era uma espiritualidade que compreendia o que eu sentia quando eu declamava um poema, ou lia algo que me encantava. E mais, valorizava esse tipo de sentimento. O pessoal do lado druídico da coisa tem até nome para isso: Awen, o espírito que flui. E, desde esse princípio, eu sempre tive uma relação com o druidismo, embora esse não seja meu caminho principal.
Na celebração seguinte, pela roda do ano, comecei a ir, como visitante, no grupo no qual o pessoal celebrava junto. As práticas eram mistas, com tendências, mas não declaradamente, wiccanas. Acabei entrando para ele, no meio do ano. Mas o grupo estava se desfazendo, pois a maior parte dos participantes estava sendo chamado para caminhos mais específicos. A parte do grupo que se manteve realmente coeso foi a metade dele que resolveu estudar druidismo. Me mantive com essa parte do grupo, já sabendo que o druidismo não era meu caminho, pois ainda não me sentia experiente o suficiente para trilhar as coisas mais independentes. Tudo foi vindo com experiências fortes, mas com tempo de assimilação entre elas, durante meu primeiro ano de celebrações, mas a partir daí as coisas se tornaram mais intensas, e o caminho cada vez mais claro.
Hoje estou aqui, tendo passado por muita coisa, sem nunca ter sido formalmente inciada, sentada de madrugada escrevendo esse texto para aprender a terminar o que começo. Hoje tenho autonomia e confiança na maioria das minhas práticas. Sei me defender e já precisei disso. Leio I-ching, estou engatinhando no tarô. Se alguém me pergunta qual é a minha religião respondo que culuto os deuses da Grécia. Se é alguém que está preparado para saber, digo mais. Honro meus deuses a cada dia, e alguns deles são seres bem próximos de mim. Aprendi a colocar as dúvidas no lugar certo, o primeiro passo para ter um coração forte. Sou casada com um praticante do druidismo, e a diversidade cultural, coisa que parece tão distante para a maioria das pessoas, é cotidiana aqui em casa.
Mas a minha vida não é um mar de rosas. Seguir uma religião como a minha não é fácil. Demanda muito esforço, dedicação, disciplina. Passei por maus bocados por chegar onde estou, e sei que vou passar sempre por eles. Aprendi mesmo a ver a vida como uma sucessão de desequilíbrios. É tudo muito mais difícil do que eu imaginava ao começar.  Aquiles diz a Ulisses no Hades, que poderia ter se contentado em ser um simples  pastor, e ter sido mais feliz, e ter  vida longa.  Eu poderia ter uma vida bem menos complicada sem isso, e talvez fosse mais feliz mesmo. Mas não me arrependo. Pois estou aprendendo a conhecer meu espírito. E esse é o verdadeiro objetivo de uma vida, segundo a minha sabedoria de criança da sexta série...

Blog EntryCaminhos para a Espiritualidade, parte IIISep 17, '07 9:51 PM
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Observação: Estou começando do ponto exato onde parei na parte dois. Recomendo que leia os dois posts.

No ano seguinte, uma das muitas reformas de ensino público pelo qual o país passou. E 1998 começou, hoje eu entendo, com as pessoas das escolas desesperadas, sem saber como aplicar as novas mudanças. Agora, era preciso encarar e falar dos temas transversais.
O jeito da minha escola encarar isso foi obrigar os alunos, sob pena de desconto na nota, de assistir uma série de palestras na capela local.
Em tese, as palestras não estariam voltadas para o pensamento católico, mas eu surtei. Decidi que não ia pisar em uma Igreja de jeito nenhum, que não queria aquilo, expliquei como os evangélicos - que eram uma boa metade da minha sala - deviam se sentir acuados e como isso era desrespeitar eles, e perguntava: "E se houvesse um budista ou hinduísta aqui? Como vocês iam tratá-lo? Ele ia ser obrigado a ir à Igreja também, mesmo não sendo cristão?
A princípio, a ala evangélica se recusu a ir também, mas quando viram que a coisa de descontar nota era séria, voltaram atrás.
Fiz trabalhos de recuperação de todas as matérias. Nunca tirei um conjunto de notas tão baixo em minha vida. Fiquei deprimida, não queria ir para a escola. Faltava dias e dias consecutivos, e às vezes chegava a ir até a escola para voltar atrás.  Pensar que eu ia ter que ficar enfileirada rezendo a oração da manhã não fazia nada bem prá mim (e eu ainda sinto uma coisa horrível quando ouço essa oração), o que fez com que mudasse de escola no meio do ano.
O segundo semestre passou voando, e surgiu uma oportunidade de voltarmos ao estado de São Paulo. Passei bem colocada na prova mais concorrida para o CEFAM-Diadema, de todos os tempos. O CEFAM era uma escola de magistério do estado em período integral, na qual os estudantes - todos vindos de escolas públicas - recebiam uma bolsa de estudos de um salário mínimo para se manter só estudando.
Lá, fiz grandes amigos. Os amigos mais antigos com quem eu ainda mantenho contato são eles. E minha sala era uma coisa de louco. Tinha muita gente inteligente, mais inteligente e que sabia mais coisas do que eu! E eu nunca tinha tido pares antes, e muito menos gente da minha idade (ou um pouco mais velhos) com quem eu pudesse aprender tanto.
Aquele ano entrou muita gente realmente boa e inteligente no CEFAM. A maioria estava na minha sala. E, através dessas pessoas,  passei a conhecer idéias novas, coisas que eu não conhecia. Logo me enturmei com o grupinho do pessoal que curtia filosofia, música boa, artes... E debatíamos sempre que podíamos, e mesmo quando não podíamos! Se a aula não fosse "forte" o suficiente, lá estávamos nós discutindo através de escrita em folhas de fichário. Entrei em contato com muita coisa inquietante e nova, e pude compartilhar um monte de coisas que eu havia aprendido lendo tanto nos três anos anteriores. Isso me dava prazer.
Também foi a primeira vez que conheci pessoas que se diziam atéias. E eu achei mesmo, por uns bons anos, que o ateísmo era a saída, já que esses deuses tiranos pareciam, pela lógica, terem sido criados pelo homem como uma válvula de escape, e então não podiam ser reais. Na época, eu diria a plenos pulmões ser atéia e anarquista! Mas pensando hoje nos meus dizeres e atos daquele tempo, por detrás de tudo aquilo nunca deixou de brilhar meu lado místico. Eu dizia acreditar que o homem tinha poderes que a ciência ainda não tinha explicado, e acreditava que pensamentos podiam ser transmitidos sem a fala, e dava uma posição considerável para sonhos e intuições para alguém que achava que nada podia ser conhecido, já que nossa única ferramenta de apreensão do mundo são os sentidos, que são falhos. Meus diários daquela época - eita bichinho da escrita que eu sempre tive e nunca me deixa mentir! - provam isso muito bem. Outra coisa interessante que escrevi foi quando o professor de Filosofia nos passou um trabalho de tema livre, e eu escrevi um panorama da filosofia grega, comparando as visõs mitológica e filosófica e lamentando a dismitologização do mundo! Claro, como linguajar e conhecimento de uma estudante de primeiro colegial. Faria um trabalho bastante semelhante (em termos de temática) na faculdade, anos depois.
"Começe me provando que eu existo" eu dizia, e estava convencida de que seria impossível para outro homem o fazer racionalmente. Eu negava totalmente o meu lado frágil, meigo e suave. Tudo o que queria era ser reconhecida como uma pessoa livre e independente, em pensamentos e atos. O amor ainda não tinha me tocado, pois todas as tentativas e paixões que eu tivera nunca tinham dado em nada. Nesse ponto, eu até evitava as aproximações, para não me machucar nem machucar ninguém.
Apesar de parecer um "dark period", um momento de luto pela morte da ilusão do grande deus que eu pensava existir,  esse período foi muito mais formador do que poderia parecer. Aprendi as alegrias e dores da paz, mas também as da guerra. Comecei a perceber a necessidade de se aprofundar naquilo que gostamos, comecei a me tornar mais atenta ao mundo real, presente, prá além dos meus vislumbres de lugares e períodos distantes. Me humanizei bastante, e, apesar dos altos e baixos, fui feliz.
Pensei, no entanto, ter encontrado um caminho tranquilo e estável. Mas as coisas mudaram aos poucos para me tornar quem eu sou. E em breve postarei a quarta e última parte, que levará ao momento atual.

Blog EntryMeus caminhos para a espiritualidade, parte 1Jan 29, '07 5:11 AM
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Saudações!

Essa foi uma semana bastante puxada para mim. Foi aquela bendita semana em que tanta coisa acontece, que parece que um mês inteiro se passou em seis dias. Reencontrei com amigos perdidos, fizeram-me (e me fiz) perguntas que deixaram pensando por um tempão, fiz merda, muita merda, mas também acertei. Até mesmo fui a um show do Pato Fu, descarregar um monte de coisas acumuladas, e ouvir canções dos bons tempos que já se foram (a sensação de ir a esse show foi meio a que passa a música Yesterday Once More, do The Carpenters).
Tudo isso me fez trazer à tona velhas memórias, tanto aquelas que realmente me marcaram (e me traumatizaram, até ^^) quanto outras que eu realmente tinha me esquecido. E, por causa de tudo isso, ontem resolvi escrever isso aqui, contar para as outras pessoas como foram, até agora, minhas experiências com a religiosidade. Sei que estou devendo a mim mesma postar outras coisas aqui, mas, enquanto não as termino, espero que gostem de ouvir esse pedaço tão especial da minha vida.



Nasci sob uma promessa a Nossa Senhora Aparecida, feita pela minha mãe, de que, se eu nascesse viva e ela sobrevivesse, ela iria à Aparecida do Norte, dedicar à Senhora uma vela do meu tamanho. Até hoje, minha mãe nunca foi a Aparecida, e, tampouco, cumpriu a promessa. Vai acabar ficando como Karma prá mim realizar.
Minha família materna é extremamente tradicional e católica, como frequentemente acontece às famílias enraizadas no centro de Minas Gerais. Minha avó, que é minha madrinha de batismo, é uma senhora extremamente beata, e de uma fé incrivelmente poderosa, que, com sua fé, consegue tornar a sua vida realmente próspera. Nada lhe falta, e ela é feliz. De seus muitos filhos, apenas um, o mais novinho, Mauro, foi levado por Deus para os céus antes que se tornasse adulto, coisa relativamente rara para aqueles que viviam no interior na época em que minha mãe nasceu. Bem, de qualquer forma era o único com um nome que não era santo, pois todas as mulheres têm o nome de um dos aspectos de Nossa Senhora, e o outro filho homem, à inspiração de meu avô, chama-se João.
Assim, a primeira memória religiosa que eu tenho, de quando eu era bem pequena, é a da minha mãe me ensinando a Ave Maria, e dizendo, não só que eu devia rezar toda a noite para ser protegida por Deus, como que se eu não soubesse a oração ela não iria comigo para a casa da vovó nas férias... E, bem, tudo o que uma criança quer é uma semana de férias na casa da vovó, né?
Minha mãe, no entanto, não ia à missa a não ser nas férias anuais na casa da minha avó. Ela via a missa televisionada pela Cultura todo domingo de manhã, e, para ela, isso era sufuiciente. Nunca vi minha mãe comungando. Ela diz que não o faz pois acha que se confessar é uma baboseira.
Eu sabia que crianças da minha idade iam à catequese para aprender sobre Deus, e tinha vontade de aprender também, mas minha mãe não me colocou na catequese, quer porque ela queria que eu escolhesse já maiorzinha, quer porque não tinha nenhuma igreja perto da minha casa e isso seria muito trabalhoso. Eu, em compensação, morria de curiosidade, pois sabia que Deus existia, mas não entendia nada sobre ele! Lembro de uma vez que minha avó veio me visitar, e eu pedi que ela me ensinasse o Pai Nosso. Nessa época tinha muito desejo de aprender, e raras vezes esse desejo me abandonou.

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